Mark Todd. 10 JAN 2019

«Sou ferozmente competitivo e não me retraio para ninguém!», Mark Todd

Leia a entrevista exclusiva do cavaleiro olímpico de CCE, que esteve recentemente em Portugal.


Tempo de Leitura: 10 min

Descrever a carreira de Mark Todd exige uma boa capacidade de síntese, ou não tivesse o cavaleiro de Completo no currículo a presença em oito Jogos Olímpicos, de onde trouxe uma mão cheia de medalhas, duas delas de ouro (Los Angeles 1984 e Seul 1988) 

Não foi por acaso que o neozelandês foi votado pela FEI como cavaleiro do século XX e integra o "New Zealand Sports Hall of Fame".

Dos emblemáticos Badminton Horse Trials já saiu vitorioso por quatro vezes, a 1.ª em 1980 com Southern Comfort III - e que considera o evento mais marcante da sua carreira - e a última em 2011, com NZB Land Vision, quando se tornou o cavaleiro mais velho a vencer o evento.

Durante a sua vida de atleta já partiu costelas, o queixo, perfurou um pulmão... Mas voltou sempre à sela dos cavalos e quando entra em pista é para vencer.

Aos 62 anos, a idade está longe de ser um problema para Mark Todd, aliás, Sir Mark Todd (depois de ter sido ordenado cavaleiro pelo Príncipe Carlos, em 2013, pelos seus serviços ao desporto equestre).

A residir no Reino Unido, diz que não tem dias "normais", dividindo o tempo entre preparar cavalos na sua Quinta e viajar por todo o mundo, seja para ministrar estágios, seja para competir nos principais concursos de CCE.

Foi precisamente durante a visita a Portugal, em Dezembro, para uma formação organizada pela ACCE, que foi possível conversar um pouco com o cavaleiro, numa entrevista exclusiva para a EQUITAÇÃO que agora lhe trazemos.

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EQUITAÇÃO - Já venceu os Badminton e Burghley Horse Trials. Ao longo dos anos, como tem visto o desenvolvimento dos percursos (cross-country) em ambos os concursos considerados por muitos como os mais difíceis do mundo?

Badminton costumava ser o mais difícil, mas durante um tempo Burghley assumiu o lugar de topo, na minha opinião. Hoje em dia são "ela por ela" no que exigem de cavalo e cavaleiro. Ao longo dos anos, os percursos mudaram muito, desde que steeplechase integrava a competição até ao que hoje conhecemos como o formato longo.

Os percursos de hoje talvez não sejam tão grandes, arrojados e rápidos como no passado, quando comecei nesta disciplina. Contudo, são muito mais técnicos agora. É preciso ter experiência como cavaleiro e é preciso estar-se num cavalo com qualidades atléticas e mentais para colaborar e que seja, ao mesmo tempo, um cavalo com alguma experiência e que saiba o que está a fazer.


Qual é o seu concurso favorito e o que o torna tão especial?

Pessoalmente o meu preferido é Burghley apenas por causa do cenário envolvente e da atmosfera. É um verdadeiro evento familiar. Badminton é Badminton. Pela "diversão" gosto do percurso do concurso holandês de Boekelo.

 

O que lhe passa pela cabeça segundos antes do Cross começar?

O percurso.

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Descreveu os 4 derrubes durante os Jogos Olímpicos do Rio como um dos piores momentos da sua carreira. Da sua experiência, como é que o cavaleiro ultrapassa este tipo de situações em que a realidade fica muito abaixo das expectativas?

Não fiquei apenas chateado por mim na altura. Senti-me pior porque senti que desiludi a equipa e o meu país. Foi ainda mais frustrante porque sabia que o cavalo era perfeitamente capaz de fazer bem o percurso. Mas essa é a natureza do desporto. Temos que aceitar que os cavalos não são máquinas, não há garantias e qualquer um de nós, ou qualquer cavalo, pode ter um mau dia.

Fiquei devastado, claro, mas como qualquer atleta profissional lhe dirá, temos que colocar o falhanço para trás das costas e ser capazes de seguir em frente até ao próximo sucesso.

 

Os Jogos Olímpicos de Tokyo em 2020 estão na sua agenda?

Vai depender. Depende de mim, dos cavalos, de muitos factores. Mas podem estar.

 

Depois de ganhar o bronze em Sydney 2000 tentou reformar-se e chegou mesmo a viajar para Waikato. Oito anos depois estava de volta ao Reino Unido e à competição. A reforma é sobrevalorizada? Quando acha que vai chegar a hora de dizer "agora já chega"?

Não cheguei bem a reformar-me... Durante esses 8 anos, trabalhei com cavalos de corrida. Não senti propriamente falta do Completo durante esse tempo. Estava ocupado. Continuei em contacto com a comunidade e assistia aos concursos, mas nada me puxava para o desporto, pois gostava do que fazia no mundo das corridas. Regressei ao Completo quase por acaso, quando surgiu a oportunidade de preparar um cavalo para os Jogos Olímpicos em 6 meses.

Deixarei de competir quando me sentir preparado, quando sentir que não posso ser competitivo ao mais alto nível. Nessa altura reformo-me.

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Que cavalos está neste momento a preparar? Quais tem previsto montar em prova em 2019?

O NZB Campino pode vir a estar em Badminton em 2019. Penso que o Leonidas II poderá vir a estar pronto para  Burghley. Prevejo com o McClaren fazer alguns 3 * e em 2019 poderá ir a Pau. Estou também a pensar fazer alguns "Event Ride Masters " com outros cavalos.

Neste momento tenho alguns cavalos novos como o Cool Tide, que fará 7 anos em 2019. É um cavalo que foi bem sucedido no nível Preliminar e que estou a preparar para o nível intermediário. Poderei levá-lo a Lyon, mas não o quero apressar. Depois há também o Cool Customer, de 6 anos, que comprei recentemente e outros dois, de 4 e 5 anos, que estou a ensinar mas que ainda não fizeram Completo.

 

Na sua opinião, quais são as principais características que um cavalo de CCE deve ter?

Quero cavalos que sejam bom atletas com boa conformação e uma boa atitude para o trabalho. Devem ser treináveis, não muito preguiçosos, não muito quentes e devem gostar do que estão a fazer. Na minha opinião devem ter pelo menos 50% de sangue Puro Sangue Inglês e mais importante do que serem rápidos, devem movimentar-se bem. Depois têm que ter três bons andamentos: um bom passo, trote e galope, e um bom salto.

 

Que cavalo(s) nunca esquecerá e porquê?

O cavalo de uma vida foi, sem dúvida, o Carisma, com o qual ganhei duas medalhas de ouro olímpicas.

 

Alguns de seus desportos favoritos são esqui, passeios de barco, corridas de cavalos e yoga. Fale-nos mais do yoga, pois pelo que sabemos, pratica todos os dias...

Normalmente acordo por volta das 6h30 e faço 30 minutos de yoga ou alongamentos, depois dos quais tomo o pequeno-almoço.

Comecei influenciado pela minha mulher, depois de me queixar que sentia que os músculos presos de conduzir o camião. Hoje em dia, continuo. Os cavaleiros estão cada vez mais cientes da necessidade de se estar em forma fisicamente, para podermos executar bem o nosso trabalho. Houve muitas vezes, e algumas quedas recentes, onde se não tivesse a força abdominal que desenvolvi por estar em forma, bem... provavelmente teria caído ou sido pior. Como aconteceu com o Leonidas no início de 2018.

Mark Todd e Leonidas II

Divide o seu tempo também com muitos estágios, um pouco por todo o mundo. O que mais gosta de fazer: competir ou ensinar (cavaleiros ou cavalos)?

Competir!!!

Mas gosto de ensinar, desde que as pessoas com quem estou a trabalhar queiram aprender.

O fim-de-semana que passei em Portugal foi óptimo. Todos aqui, seja a cavalo, como instrutores no programa de treino credenciado, ou apenas na plateia a assistir, têm estado cheios de vontade de aprender. Foi adorável ter uma audiência tão grande e interessada durante todo o fim de semana.

Estou habituado a dar lições em todo o mundo e a todos os níveis. O meu trabalho é ensinar o que tenho à minha frente. Se puder dar a cada cavaleiro uma ou duas coisas para ele depois continuar, então atingi o meu objectivo.

 

Do seu conhecimento, que opinião tem sobre os cavaleiros portugueses?

São um grupo brilhante. Acho que é difícil para Portugal atingir o nível máximo, estando tão longe do centro do desporto. No entanto, vi cavaleiros e cavalos com talento neste fim de semana e não há razão para Portugal não conseguir chegar ao topo. No final de contas, tudo se resumo a inspiração e crença.

É preciso estabelecer objectivos e acreditar que podemos alcançá-los. Penso que este fim de semana que passei em Lisboa certamente um bom passo na direcção certa para o Completo Português.

 

Por vezes tem de competir com os seus alunos, como acontece com os da equipa de Completo do Brasil, por exemplo. Como é para si competir contra cavaleiros que ensina?

Como professor, queremos sempre que a pessoa que estamos a ensinar se saia bem. Se isso significa que eles te vencem, bem, então é porque fez um bom trabalho.

Assumi a preparação da equipa brasileira por gostar do desafio de melhorar uma equipa que já existia há algum tempo, mas que nunca se tinha conseguido afirmar. Não foi fácil porque, tal como aqui em Portugal, não há muitos cavaleiros e cavalos.

Se sinto que influenciei qualquer aluno de uma maneira positiva, isso também me traz uma grande satisfação pessoal. Mas, não me interprete mal, sou ferozmente competitivo e não me retraio para ninguém!

Estou lá para ganhar e todos os meus alunos sabem disso.

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Qual foi o melhor conselho que já lhe deram?

Provavelmente o mesmo conselho que dou a outras pessoas e que é: observar e aprender. Tenho 62 anos, estou no topo mundial e durante os concursos, como nos Jogos Equestres Mundiais, por exemplo, ainda faço questão de assistir às provas de Ensino e Obstáculos, para ver o que os outros fazem e como o fazem. Não podemos deixar de aprender, podemos aprender uns com outros. 

 

Com uma carreira tão longa, com tantos sucesso, consegue escolher um momento?

Ganhar Badminton pela primeira vez.

 

Quem foi a pessoa que mais o influenciou ao longo da vida?

Houve muitas pessoas na minha vida que fizeram a diferença. Tantos óptimos treinadores, grandes amigos, a minha família... Poderia continuar aqui a enumerar para sempre.

Tenha sido por escolha ou por acaso, tenho tido a sorte incrível  de ter boas pessoas a ajudar-me e sempre procurei fazer o melhor sempre que pude.

 

Como se descreve como cavaleiro?

Um pouco perfeccionista e analista. Tenho a sorte de ser naturalmente atlético, tenho bom equilíbrio e um temperamento moderado. Basicamente todas as coisas que devemos procurar num bom cavalo também. Ah, e como já disse, sou extremamente competitivo!

 

Era conhecido como sendo um "party animal". Esses dias acabaram? Como se sente aos 62 anos?

(gargalhada) Isso são tudo rumores! É importante divertir-nos em qualquer profissão, desde que isso não atrapalhe o trabalho. Isso é tanto verdade quando temos 62 como aos 26.

Fotos: Mark Todd Eventing, FEI, Giovana Franchi

Autor:

Ana Filipe

anafilipe@invesporte.pt

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