Equitação. 09 JAN 2019

BREVES NOÇÕES DA “DOMA EM HARMONIA”

Nos cavalos jovens e na reeducação de outros com problemas.


Tempo de Leitura: 19 min

O cavalo e o homem, no decorrer dos séculos, durante as etapas de domesticação por que passaram, viveram sempre uma relação de convivência, nada fácil. Na realidade nasceram em polos opostos, um é a presa, o outro é o predador.

O cavalo, com a sua grande estatura é forte, rápido nos movimentos, veloz na corrida, um “sprinter” nato; o homem, ao contrário, o seu andamento normal é o passo, usando normalmente a marcha e poucas vezes a corrida e a velocidade. O homem pesa por volta dos 80kg, o cavalo ultrapassa facilmente os 500 e a força física de ambos são, por consequência, proporcionais ao seu peso corporal. Assim, com essas diferenças e outras tantas que seria enfadonho mais citar, como é que se pode imaginar ser possível uma convivência em harmonia e de comum acordo entre os dois?

Apesar de difícil, no entanto, isso vai acontecer, com maior ou menor dificuldade, porque o cavalo tem uma extraordinária capacidade de se adaptar a todas as adversidades, inclusive às enormes asneiras que o homem usa, por vezes, na tentativa de o domar e ensinar.

Também a ciência moderna da Etologia, que estuda o comportamento dos animais e o modo como vivem na natureza, tem vindo a ajudar bastante, revelando os porquês e explicando os motivos porque os cavalos reagem, às vezes de maneira peculiar, que não se deseja e nos desagrada. Têm sido bastante notórias, nos últimos tempos, as revelações que essa ciência nos tem trazido para a compreensão e aperfeiçoamento dos métodos para mais fácil se ensinarem.

Consideramos nós, que são peculiares e erradas essas reacções, mas na verdade não o são para eles, pois têm sempre como base, a sua constante autodefesa que os instintos primários lhes ditam.

O primeiro e o mais importante de todos, que estará sempre presente é o medo, esse interminável receio e permanente preocupação que os cavalos têm em preservar e defender a sua integridade física.
É por isso que se assustam facilmente, resistem e desobedecem às indicações que lhes damos e fogem em «espantos» e correria desenfreada, protestando muitas vezes com as cangoxas e saltos, na tentativa de se libertarem de algo que receiam e os atormenta, que por vezes acontece ser o próprio homem que levam em cima e tudo fazem para que ele dali saia.

É o seu instinto primário que se sobrepõe a tudo, não porque reajam contra o homem, mas porque os instintos lhe dizem, que possivelmente carregam um predador, instalado no seu dorso e é ou pode vir a ser uma ameaça iminente à sua integridade física.

Acontece então, essa tremenda confusão, o cavalo a desconfiar do homem pensando que tem em cima um predador na acção de caça, por outro lado o homem que está a passar por uma situação deveras incómoda e arriscada, pensa que o cavalo se opõe contra ele e não lhe quer obedecer porque está a revoltar por mau caracter e irascibilidade. Não vai ser possível, o mais pequeno entendimento entre os dois.

Infelizmente, são estas situações que muitas vezes acontecem e têm a ver com a falta de tacto e da não observância das regras fundamentais da boa Equitação que imperativamente, deveriam ser utilizadas.

A seguir tentaremos explicar algumas.

Na maior parte dos casos, um dos principais erros se deve, à falta de uma cuidadosa preparação prévia, o que faria acalmar e abrir o entendimento do cavalo dando-lhe a perceber que um ou outro movimento mais inusual do homem, não tem a ver com uma acção de predação nem é o preliminar de um ataque que o possa pôr em perigo, nem contem nenhuma ameaça.

Assim, todos nós que nos dedicamos à prática da Equitação, devemos ter como base principal e ponto de partida no nosso método de trabalho, um cuidado extremo na preparação da progressão do ensino, consolidando muito bem os exercícios anteriores antes de se passar aos seguintes.

Dessa forma é normal e bem conhecido de todos que se deve principiar com o trabalho a pé em terra que só depois de executado na perfeição e bem alicerçado, se deverá passar à fase seguinte de montar.
Nessa cuidadosa preparação anterior são fundamentais os exercícios da tranquilização e da calma, permitindo a estabilização mental e emocional do cavalo, para se o possa deixar nas melhores condições de assimilar correctamente o que lhe é pedido.

Como condição fundamental, não pode haver sucesso sem que antes se termine o «stress» e a intimidação, que são a origem do aparecimento imediato de todas as defesas que por certo iriam surgir.

É por isso, que se torna absolutamente necessário, como se disse, preparar irrepreensivelmente o trabalho anterior antes de iniciar o passo seguinte.

Em que é que vai consistir portanto, essa preparação?

Vários factores têm de entrar em jogo.

O mais importante é a observação e o cuidado a ter com o estado emocional do cavalo. Tudo deve ser cuidado para que nasça uma perfeita convivência sem medos e surpresas e se possa conseguir uma sã camaradagem entre o cavalo e o homem.

A tranquilidade e a paz interior do seu mestre, a suavidade e a “finesse” das ajudas, a compreensão e condescendência às dificuldades do cavalo, não se usando a força de contenção em contínuo, são as principais razões para não perturbar o seu estado emocional.

É muito importante quando se notar que o cavalo se surpreende e suspeitar de alguma coisa deixando no ar a sua interrogação de alarme, aí mesmo, se lhe deve mostrar que essas suspeitas não têm razão de ser, pois tudo se estava a passar normal e não tinha motivo para sustos. Para isso toda a nossa pressão biológica interior deve ser reduzida para dar ao cavalo a calma e serenidade e voltar assim outra vez ao normal.  

Não se deve portanto aumentar, para mais a pressão que se esteja a usar, quando se sentir que o cavalo fica mais tenso, desconfiado e receoso.

É esse sentir da sua apreensão crescente que o homem deve de imediato descobrir e aperfeiçoar na sua sensibilidade, para que o mais cedo possível consiga aperceber-se dela e tomar os procedimentos correctos para evitar males maiores.

A Equitação é a arte de bem entender esses pequenos detalhes, chama-se a isso o tacto equestre.

Quanto o cavalo toma o estado de desconfiança e medo, há que considerar que se encontra em dificuldade de nos entender e para quê exigir-lhe, nesse momento mais coisas, se o que muito naturalmente vai acontecer, é enervar-se ainda mais e acabar por explodir, terminando em disparates, espantos e fuga.

Antes de mais nada, há que o tranquilizar, levá-lo à calma e à serenidade, dando-lhe todo o tempo necessário para que possa baixar a guarda, descontrair, normalizar e começar a discernir o que dele queremos.

Nunca se devem usar, movimentos bruscos e puxões com força que o assustam e o põem em defesa. Também nunca a mão deve usar a tensão em contínuo. Devem-se usar sempre antes, as vibrações e os movimentos de pulsação. Foi essa a última grande lição, no seu leito de morte do grande mestre BAUCHER.

A força em contínuo é dos procedimentos mais nefastos para se passarem em nitidez, as mensagens daquilo que pretendemos do cavalo.

Quando se utiliza a mão dessa maneira só se vai conseguir pô-los em resistências, contraí-los contra essa pressão que os irrita e incómoda para depois começarem, eles próprios a pôr mais pressão em sentido contrário ao nosso. Por ser tão importante esta questão, voltaremos a ela num próximo artigo.

Dar-lhe tempo, também é a melhor forma para poderem entender as nossas solicitações. O povo diz até que «o tempo cura as feridas» e aqui também no ensino, vai nos dar resultados extraordinários. É muito importante dar-se-lhes o tempo necessário para que assimilem o significado das ajudas.

Todos os nossos movimentos estão “colados” a uma mimica corporal, que quando intranquila, vai despoletar de imediato nos cavalos as atitudes de sobressalto e desconfiança, que muito os assusta e é completamente contrária ao desenrolar produtivo do ensino.

Quanto mais sustos lhes forem dados, mais tempo vão necessitar para os esquecer e mais prolongado se tornará o ensino.

Há ainda outros factores, também de suma relevância:

- Depois dessa importantíssima etapa de aprendizagem da calma e da boa convivência com o homem, a progressão seguinte deve incidir num outro aspecto de grande relevo na relação homem/cavalo.

Consiste na necessidade de se ter de demonstrar e esclarecer ao cavalo a posição hierarquica em grau superior do seu mestre.

Não é esta, uma hierarquia beligerante que o vai submeter por coacção, mas consiste em ensiná-lo a reconhecer no homem, que tem sobre ele uma acção de pleno comando e controlo, sempre em atitude pacífica, mas que lhe exige com todo o rigor, os terrenos e as direcções por onde tem de seguir, sem se administrarem castigos e sustos; sempre em total tranquilidade, mas utilizando sem vacilar a firmeza, a rectitude e a repetição.

Também há outra regra incontornável e muito importante, que passamos a descrever: 

- Não é preciso castigar forte uma atitude ou um exercício que consideremos incorrecto ou mal executado, a punição vai ser de outra forma mais subtil.

O que se tem de fazer então, é de imediato aproveitar essa ocasião, para tornar a acção do cavalo mais difícil e incómoda para ele, obrigando a repeti-la várias vezes, com algum esforço, para se dar conta que aquilo que estava a fazer não era, o mais confortável para ele.
Ter de repetir o exercício várias vezes, vai-se tornar fastidioso e desagradável para ele.

Em certo momento procurará fazer um esforço e pôr mais atenção ”perguntando”, o que é que deverá fazer de diferente, para não ter mais de repetir e o deixarem em sossego.

Quando isso acontecer e for perceptível, é-lhe logo concedido um abrandamento da pressão que se estava a usar com ele.

Nesse instante a sua mente reconhece que ao pôr mais atenção naquele que é o seu líder, lhe pode trazer menos esforço.

Ao adoptar essa conduta diferente e ser recompensado com um agradável alivio, a sua mente fez “clic” e apercebe-se que a recompensa surgiu, pelo do seu esforço ao mudar de atitude.

A partir de aí, memoriza e vai procurar seguir melhor as indicações do seu mestre, pois ficou a saber que quanto mais depressa obedece, mais pronto tem a recompensa.

Deu-se conta que, quando colabora, lhe é dada a oportunidade de receber uma agradável recompensa.
Aprendeu a não fazer o que se torna mais difícil, optando por executar o que lhe é mais fácil (seg. Ray Hunt).

Deste modo consegue discernir qual a melhor opção, onde irá ficar confortado com a recompensa e o alívio, encontrando a calma, não tendo que disponibilizar mais energias nem ter de usar os instintos de alerta e defesa, que certamente iriam aparecer se tivesse sido castigado e punido fisicamente, o que acto contínuo iriam desencadear as respectivas reacções instintivas de defesas e resistências.

Assim, pouco a pouco vai confiando e verificando não estar em perigo na convivência com o homem, pois este sempre lhe indica «a melhor maneira do que tem a fazer», proporcionando-lhe o bem-estar sem ameaças.

Nestas condições vai deixando para trás as suas próprias iniciativas e leviandades, procurando estar atento em seguir e obedecer a ordens.

Os cavalos na natureza têm inculcado nas suas características, as 2 opções no seu comportamento:

1º - ou vão seguindo a sua própria vida, sempre preocupados com a autodefesa e considerando que vivem em meio hostil  tendo que usar os instintos que a mãe natureza lhes deu, para estarem alerta e se protegerem,

2ª - ou vão delegar noutro, que que se encarregue dessa missão de os guardar, entregando-lhe todo o comando dessas operações para seja ele a dar o alerta quando for preciso e passam a considerá-lo o especialista dessa missão.

Pode assim todo o grupo onde se encontra inserido, descansar e preocupar-se com a comida e afugentar os insectos incomodativos, que passam a ser as suas principais preocupações desse momento. Alguém estará vigilante e de sobreaviso. 

No caso de uma boa convivência com o homem, onde esse grupo é formado unicamente por esses 2 elementos, ele e o seu mestre, esse mesmo posicionamento vai acontecer. O cavalo encontrando a calma e o bom trato, vai delegar no homem, o seu guia dando-lhe toda a posição de líder/condutor.

É por isso que quando reconhece nele essas qualidades e onde existe a autoridade e onde sempre de uma forma assertiva e tranquila, lhe é indicado o bom caminho, em determinada altura, como por encanto passa para ele, toda a condução total e a gerência dos passos e directrizes que esse condutor lhe está a dar.

Todos nos lembramos de um dito que existe na nossa tradição equestre que traduz bem o momento em que isso acontece. Recordam-se de ouvir a expressão de que tal cavalo, se «entregou»?

É essa situação que efectivamente acontece na realidade, mas só quando se geram todas as condições que acabamos de descrever.

É com muito pesar que podemos verificar no entanto, que só poucos cavalos com sorte, os quais são tratados com sabedoria e paciência têm a possibilidade de aí chegar.

Os outros infelizmente vão ter de seguir atribuladamente na vida, numa permanente e árdua tentativa de se adaptarem sem o conseguirem, sempre em desconfiança, cada vez mais inquietados e em receio, ao ponto de embrutecerem e se dessensibilizarem seguindo como zombies sem brilho nem expressão em constante insegurança e intranquilos.

Se alguém lhe der uma instrução conveniente, há realmente a entrega total ao homem, com todas as suas iniciativas de defesa anuladas, para ficarem à espera das ordens do seu líder.

O mais interessante ainda é o que vai acontecer em consequência disso, todos os medos, suspeitas e resistências deixam de estar presentes, pois houve a decisão do cavalo em delegar no homem a total governação da sua vida, obedecendo-lhe com agrado e terminando todas as ideias contrárias que até ali poderia ter utilizado.

Torna-se o seguidor do homem e este o seu líder-condutor.

A partir de então, todo o ensino vai se tornar agradável, dando satisfação e alegria a ambos, como deveria ter sido sempre desde o princípio, mas que muitas vezes assim não acontece.

Só dessa forma o ensino se vai tornar rápido e produtivo.

24231739_1584925358213143_5789479722061606802_n

Fotos: Adriana Barros Photography

Autor:

António Castro

alcastro@iol.pt

QUER SABER MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO?

Insira o seu e-mail e receba todas as novidades