Veterinária. 08 JAN 2019

O MEU CAVALO TROPEÇA, SERÁ NORMAL?

Qualquer cavalo pode tropeçar ocasionalmente mas se isso acontece com frequência pode ser um sinal de aviso e representar um problema, podendo mesmo originar quedas e consequências desagradáveis para o cavaleiro.


Tempo de Leitura: 13 min

Existem várias causas que podem levar o cavalo a tropeçar. Vejamos algumas:  

- Terreno/piso: será de esperar que um cavalo tenha mais tendência para tropeçar em terreno irregular ou piso muito “pesado”, especialmente se estiverem presentes outros factores predisponentes. O mesmo pode ocorrer se, durante uma sessão de exercício, um cavalo passa para um piso diferente do que está habituado. Um cavalo que tropeça ou precipita a passada em piso com algumas pedras pode fazê-lo por ter os cascos sensíveis (Fig. 2).

vet135_02-3-4- Falta de atenção ou cavalo pouco activo: tropeçar pode ser apenas um sinal de falta de atenção por parte do cavalo especialmente em cavalos novos. Cavalos mais preguiçosos ou pouco activos também tropeçam com maior frequência, especialmente a passo.

- Cascos/ferração: cascos muito compridos (seja porque o intervalo entre ferrações é demasiado longo ou porque apresentam uma pinça muito comprida comparada com a altura dos talões) são um factor predisponente importante (Fig. 3 e 4).

- Descoordenação e alterações neurológicas: se o cavalo tem défices de propriocepção, ou seja, o sistema nervoso não transmite com exactidão e rapidez a localização precisa das diferentes  regiões do seu corpo em relação ao espaço que o rodeia, terá mais difi culdade em ajustar a posição dos membros, especialmente se houver alterações na direcção do movimento ou das características
do terreno.

Uma situação muito diferente mas que também está relacionada com a falta de transmissão da informação proprioceptiva dos membros para o sistema nervoso central refere-se aos cavalos que foram submetidos a Neurectomia dos nervos digitais palmares procedimento cirúrgico utilizado como tratamento nalguns casos de Síndrome do Navicular, em que é cortado e removido um segmento dos nervos responsáveis pela inervação da região dos talões).

- Dor: um cavalo com dor a nível dos talões apresenta andamentos mais curtos e desconfortáveis em piso duro ou irregular, o mesmo acontecendo com cavalos com sola mais fi na que podem tropeçar ou perder o apoio ao pisar uma pedra por exemplo.

Qualquer dor a nível dos membros pode evidentemente causar uma alteração dos andamentos do cavalo, mas especialmente quando se trata de dor crónica e bilateral isso não causa necessariamente uma claudicação evidente. Por vezes os sintomas são apenas andamentos mais curtos e alguns tropeções ocasionais.

Outras regiões também podem ser fonte de dor crónica, algumas delas são frequentemente  subvalorizadas como a região cervical. Também os problemas de dorso (provenientes por exemplo de um arreio que causa pressões localizadas e mal distribuídas) irão causar andamentos mais rígidos.

- Fadiga e falta de condição física: está provado que o aparecimento de lesões em cavalos de desporto aumenta exponencialmente a partir do momento em que a fadiga se instala. Tropeçar pode ser um sinal de fadiga ou fraqueza, já que o tempo de reacção aumenta e os reflexos tornam-se mais lentos, há menor controle sobre a colocação dos membros e o esforço muscular torna-se menos  coordenado.

vet135_05- Conformação: conformações que de um modo geral sobrecarreguem os membros anteriores, como pescoços curtos e de inserção baixa ou dorso “mergulhante” (Fig. 5), dificultam uma biomecânica correcta e uma distribuição equilibrada do peso.

- Problemas de visão: embora não sejam, na minha experiência, uma causa frequente, naturalmente devem ser descartados.

- Cavaleiro/equitação: se o cavalo não apresenta irregularidade de andamentos evidente à guia e só tropeça montado, é possível que o próprio peso do cavaleiro seja sufi ciente para dificultar o equilíbrio do cavalo ou exacerbar alguma situação pouco evidente, dependendo da posição em sela e do equilíbrio do cavaleiro (Fig. 6). O peso do cavaleiro pode também constituir uma limitação, é comum referir que não deve ser superior a 20% do peso do cavalo como limite máximo.

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ABORDAGEM AO CAVALO QUE TROPEÇA COM FREQUÊNCIA

Se um cavalo tropeça com mais frequência é recomendável chamar, em primeiro lugar, o médico veterinário para realizar um exame clínico (ortopédico e neurológico) para melhor caracterizar a situação (identificar os membros e as situações em que ocorre, etc.) e averiguar a causa.

vet135_07-8A título de exemplo, uma causa frequente de instabilidade e tropeços que afecta só os membros posteriores é a instabilidade das rótulas, mais comum em cavalos jovens e muitas vezes associada a um deficiente desenvolvimento muscular dos membros posteriores, com sintomas mais evidentes nas descidas ou nas transições do trote para o passo.

Por vezes não é possível diagnosticar uma causa clara e evidente através de um exame clínico convencional. Nesse caso faz todo sentido chamar um veterinário com formação em Quiroprática ou Osteopatia, que pode fornecer uma ajuda preciosa no tratamento de algumas destas situações estabelecendo a simetria funcional dos membros e da coluna vertebral e a amplitude de movimentos normal de cada articulação (Fig. 7)!

 

TRATAMENTO

Detectada(s) a(s) causa(s) será mais fácil estabelecer um plano de tratamento. O ferrador é quase sempre parte fundamental desse plano de tratamento quer a nível do recorte do casco para restabelecer o equilíbrio correcto quer a nível de alterações da ferração para diminuir a ocorrência destes problemas (por exemplo: encurtar a pinça, recuar a ferradura, aumentar o “rolling” da ferradura na pinça para facilitar o fim da fase de apoio em que os talões começam levantar do chão - Fig. 8; usar ferraduras mais leves, etc.).

E além do tratamento médico eventualmente necessário e do tratamento por Quiroprática já referido, esse plano de tratamento pode também incluir recurso a outras técnicas ou modalidades (Fig. 9 e 10). Para estimular a propriocepção podem ser utilizados estimuladores tácteis (Fig. 11) ou kinesiotape nos membros entre outras técnicas (Fig. 12), assim como variar frequentemente os pisos (Fig. 13) e intercalar o trabalho do picadeiro com saídas para o exterior. A utilização de passadeiras aquáticas (Aquatrainer) é outra ferramenta interessante que estimula, entre outros aspectos, a elevação dos membros e o fortalecimento muscular (ver Revista Equitação n.º 132).

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Finalmente, também o cavaleiro tem um papel importante não só procurando manter o cavalo mais activo e atento às ajudas, mesmo a passo, melhorando o equilíbrio do cavalo e fortalecendo os membros posteriores, como também organizando o seu plano de exercício semanal com vista à melhoria da condição física e incluindo alguma variação no tipo de trabalho por forma a manter o cavalo interessado!

Autor:

João Paulo Marques

jpaulomarques@hotmail.com

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