Rodrigo Giesteira Almeida. 04 JAN 2019

Rodrigo Giesteira de Almeida: Vontade de Vencer

Leia a entrevista com o Campeão Nacional em título de Saltos de Obstáculos.


Tempo de Leitura: 11 min

Já lá vão sete anos desde que Rodrigo Giesteira de Almeida saiu de Portugal rumo à Bélgica, para casa do ex-campeão do Mundo Jos Lansink. Desde então, passou pelos estábulos de Gilbert de Rok, encontrando-se agora no Stal Joppen, em Maasbree, no sul da Holanda. Actual Campeão Nacional Sénior de Saltos de Obstáculos, o cavaleiro do Porto esteve à conversa com a EQUITAÇÃO sobre o seu percurso hípico, numa história que tem ainda muitas páginas por escrever.

Acabado de chegar do CSI de Opglabbeeke (BEL) - onde alcançou bons resultados nos Grandes Prémios (6.º com Gc Chopin’s Bushi no de 3* e 5.º com Gaga E D’ Augustijn no de 1*) - e quase de partida para o CSI5* de Estugarda (ALE), prova a contar para a Taça do Mundo FEI, foi entre concursos que Rodrigo encontrou tempo para esta entrevista. “Não me lembro de ter um fim-de-semana sem concurso” desabada. “Tenho a sorte de estar, na minha opinião, no melhor país do mundo para a disciplina dos Saltos de Obstáculos. Estou rodeado de cavaleiros de grande nível e de muito bons concursos desde regionais, nacionais e internacionais. Passo grande parte do tempo a saltar na Holanda mas também gosto e faço alguns concursos fora, na Bélgica, Alemanha, Suécia, Polónia… Nem sempre consigo, mas tento planear também alguns concursos em Portugal porque sabe-me bem regressar a casa!”

Foi num desses regressos que se sagrou Campeão Nacional, em Junho passado, no concurso realizado na Sociedade Hípica Portuguesa. Apesar das saudades de casa, o Hipismo fala mais alto e este ano o Natal não vai ser na cidade que o viu nascer. “Vou estar no Olímpia Horse Show (GBR) até à véspera de Natal e no Jumping Mechelen (BEL) logo no dia depois do Natal” avança. Em vez dos pais, do irmão Tomás, dos avós, tios, primas e padrinhos, este ano serão os cavalos e a tratadora Isabel Ledin a sua companhia, no fundo, a família que escolheu.

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Já lá vão duas décadas desde que montou pela primeira vez. Tinha então 6 anos e os Saltos de Obstáculos foram a opção lógica e natural. “Sempre fui apaixonado por cavalos , natureza e adrenalina. Juntei os três e não podia ter tomado melhor decisão pois encontrei o desporto certo” recorda. Rodrigo começou por montar no Centro Hípico do Porto. “Tive a sorte de ter sempre uns pais que me aconselharam e traçaram a minha carreira. Tentei ouvir e absorver o máximo de todos os treinadores por onde passei. Michelle Oliveira Silva, António Portela Carneiro e o Nuno Manta ensinaram-me as bases da equitação."

Com a cavaleira irlandesa Jessica Kürten Rodrigo teve a primeira experiência fora de Portugal, tendo depois passado alguns anos, na Equivarandas (Cartaxo), na casa de Luís Sabino Gonçalves “onde aprendi, aperfeiçoei e ganhei muita experiência como cavaleiro. Sem dúvida foi um enorme pilar na minha carreira”. 

Estávamos em 2011 quando surgiu a oportunidade de uma vida: trabalhar com Jos Lansink (HOL). “Foi uma decisão muito difícil para mim porque sempre tive uma ligação quase familiar com toda a família Sabino. Depois de vários bons resultados em Portugal senti que queria mais e estar perto dos melhores cavaleiros do mundo para tornar a minha evolução cada vez mais forte e rigorosa” explica. Os primeiros tempos fora foram ao mesmo tempo “difíceis mas sempre motivantes. Sair da nossa zona de conforto é duro mas com trabalho e espírito de sacrifício tudo é possível de ultrapassar.”

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Nos últimos anos, o Campeão Nacional tem treinado com grandes nomes do hipismo. “Neste momento tento ter a ajuda do Albert Voorn (HOL), sobretudo em cavalos sensíveis e com muita qualidade. Estou com o Antonis Petris (GRE) sempre que possível em concursos e falamos muito por WhatsApp. No dia-a-dia partilho as minhas ideias com o meu patrão Loewie Joppen.”

Num dia em que cerca de 10h são passadas a montar, Rodrigo Giesteira Almeida tem, neste momento a seu cargo, uma quadra de 12 cavalos para competir, que considera “sem dúvida o melhor grupo que alguma vez tive. Quer para o presente quer para o futuro.” Entre eles, Hassan Van de Wittrmoere (com o qual venceu o CPCO), Isolde vd Heffi nck (ouro por equipas nos Jogos do Mediterrâneo), Gc Chopin’s Bushi (que levou aos Jogos Equestres Mundiais, Tryon 2018) ou Gaga E D’ Augustijn (24.ª no Campeonato do Mundo de Lanaken). “2018 foi sem dúvida o melhor ano da minha vida até ao momento. Espero aprender e evoluir mais e trabalhar para que cada ano seja sempre melhor que o anterior” vaticina.

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Os Jogos Equestres Mundiais em Tryon (EUA) marcaram a estreia de Rodrigo em Mundiais e embora o evento tenha reunido diversas críticas negativas, para o jovem cavaleiro não deixou de ser uma “uma óptima experiência. Apesar de ter recebido o meu cavalo poucos meses antes do Campeonato acho que provámos que podemos competir ao mais alto nível. A ligação entre cavalo e cavaleiro e uma grande preparação física são elementos essenciais neste nível tão elevado. Senti-me confortável e confiante nos percursos exigentíssimos que nos foram surgindo durante o Campeonato.”

Rodrigo não tem medo dos grandes palcos e aos 26 anos sonha pisar muitos dos que ainda lhe faltam. “Tenho vários concursos favoritos. Gotemburgo (SUE) foi um dos que mais me marcou, pois foi onde fi z a primeira Taça do Mundo 5* indoor e onde ganhei os U25 Lovsta Future Challenge durante o Campeonato da Europa. A etapa do Estoril do Global Champions Tour e o CSIO de Lisboa também são concursos que tenho sempre grande vontade em saltar. Aachen (ALE) é a catedral dos Obstáculos e é sem dúvida um lugar onde gostaria de competir. Está na minha lista de objectivos, por isso espero lá chegar o mais rápido possível.” Nessa mesma lista está a conquista de uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos e é por isso que busca “a Perfeição. O meu maior objectivo como cavaleiro é aprender cada vez mais e ser um cavaleiro completo. Competitivo, rigoroso, respeitar os meus cavalos. Estou sempre pronto a aprender coisas novas e a discutir ideias para que no futuro a minha base equestre fique mais sólida e apta a construir um cavalo do início até ao mais alto nível” afirma.

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Viciado em adrenalina, quando não está a montar tenta sempre fazer outros desportos além da equitação. “No Verão pratico Ski Aquático, Surf e Bodyboard e no Inverno procuro nadar e manter o corpo flexível.” 

Embora as saudades de casa por vezes apertem, Rodrigo está completamente ambientado a esta vida. “O que mais sinto falta de Portugal é o clima maravilhoso que temos ao longo do ano comparado com a Holanda. A cozinha Portuguesa, as surfadas nas horas livres, falar a minha própria língua e poder conviver diariamente com a família e amigos. Mas aqui na Holanda já criei o meu Mundo! Grandes cozinhados à Portuguesa. Em vez do Surf, tenho o Ski Indoor... Tenho um bom grupo de amigos para me divertir e começo a ‘arranhar’ o holandês. A família está sempre online graças a todas as novas tecnologias!” afirma. É por tudo isso, que regressar a Portugal em definitivo está fora dos planos do cavaleiro. “Faço questão de ir no mínimo uma vez por ano para estar com a minha família e visitar os meus amigos. Profi ssionalmente não faço questão de voltar a não ser para participar em alguns concursos.” 

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Entre Portugal e a Holanda, onde hoje reside, Rodrigo encontra grandes diferenças, principalmente na “exigência no trabalho do dia-a-dia. Aqui, há sempre um plano a seguir para atingir qualquer que seja o objectivo, o que torna tudo mais rigoroso e profissional. Só desta forma se consegue ter uma evolução sólida e conquistar a confi ança de bons sponsors e proprietários”, afirma o cavaleiro que indica o perfeccionismo como uma das suas qualidades. Quanto a defeitos: impaciente. Por isso é melhor terminar a entrevista, que já vai longa, e deixá-lo regressar aos cavalos.

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Artigo publicado in Revista Equitação n.º 134, Novembro/Dezembro de 2018

Autor:

Ana Filipe

anafilipe@invesporte.pt

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