Comentário. 20 DEZ 2018

A prova de 6 barras

Durante muitos anos, talvez desde o Rei Luís XIV, Rei Sol, que era a França que ditava as ordens na Europa. Assim, a língua francesa era a língua oficial. Na moda, livros e revistas de informação equestre, assim como nos regulamentos de provas, era o francês que dominava.


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Alguns termos ainda se mantêm em francês, especialmente na disciplina de Ensino - Dressage, piaffer, passage - que não têm tradução para português.

Traduzindo regulamentos de provas, como por exemplo as 6 Barras, existe um erro de tradução. Aquilo a que os franceses chamam de “barres” e nós traduzimos para barras, é errado pois “barres” são as nossas varas dos obstáculos. Nós chamamos barras àquelas tábuas que compõem alguns verticais. Aí os franceses chamam “droit” ou “palanques” (Fig. 1 e 2).

Então esta prova dever-se-ia chamar dos 6 Verticais ou dos 6 Verticais de Varas.

Passando adiante: é uma prova especial tipo potência, com barrages sucessivas, julgada pela Tabela A sem tempo concedido nem tempo limite.

É composta por 6 obstáculos verticais em linha direita e à distância de duas passadas (cerca de 10.8m).

Os obstáculos irão subindo logo que haja mais do que um conjunto que complete o percurso sem faltas.

Só há quatro barrages além do percurso inicial.

Comentário EQ134 - Fig 2

Para fazer esta prova, um cavaleiro tem que ter alguma, pelo menos, experiência. Porquê? Porque à medida que os verticais vão subindo, a distância entre eles vai “diminuindo”, não que sejam mudados os saltos mas porque subindo, a projecção dos cavalos aproxima-se do salto seguinte na recepção e terá que se afastar na batida, para o saltar sem faltas. Como é possível? O cavaleiro conduz a sua montada reduzindo na recepção, mas sem nunca se esquecer do mais importante: não pode perder impulsão. É fácil? Não! E é com impulsão que irá saltar sem faltas o obstáculo seguinte.

Quando os obstáculos atingem alturas de 1,60m – 1,70m e mais, a forma de montar será diferente – o cavalo fará o que nós chamamos uma subida de frente – aproximando-se mais dos obstáculos, do que resulta ficar mais longe do obstáculo da frente, provocando um “aumento” da distância, para as duas passadas. Aí o concorrente terá que aumentar a impulsão e a velocidade para cumprir, sem faltas, mais uma barrage (Fig. 3).

Comentário EQ134 - Fig 3

A última prova das “6 Barras” (ainda lhe chamo assim) a que assisti, foi realizada na LXII Semana Equestre Militar em Mafra, na Escola das Armas, em 22 de Abril de 2018.

Participaram 13 concorrentes. Saiu vencedor o Capitão Leite Rodrigues, cavaleiro com larga experiência tanto em Obstáculos como em CCE, disciplina em que venceu por cinco vezes o Campeonato.

Leite Rodrigues dedicou a prova das “6 Barras” à sua filha Filipa que, aos 14 anos, faleceu vitima de um coice na cabeça. A Filipa era uma das promessas da equitação portuguesa (notícia do Correio da Manhã de 23.12.2006) tendo conseguido resultados dignos de registo tanto em Portugal onde conquistou a medalha de bronze no Campeonato de Saltos de Obstáculos em 2006 e um 5.º lugar num Troféu realizado na Galiza (Espanha) no mesmo ano.

Leite Rodrigues aparelhou o seu cavalo, um poderoso irlandês, Roy Soleil, com a suadouro que a Filipa normalmente levava para as provas: azul claro com a bandeira portuguesa.

Filipa Leite Rodrigues e Capitão Leite Rodrigues

Leite Rodrigues cumpriu as quatro barrages sem faltas, com o último vertical a 1.60m e saiu brilhante vencedor.

Que satisfeita e orgulhosa deve ter ficado a Filipa, onde quer que esteja!

Quando, terminada a prova, ficámos à conversa, falámos do que sofrem os pais quando perdem os filhos: ele perdeu a Filipa, eu perdi o Miguel Luís, a Rita e a Marta. Os nossos olhos ficaram marejados de lágrimas.

Sempre lembro de uma frase que o meu Pai mandou juntar à fotografia do meu irmão Nuno Manuel, que perdeu a vida num acidente de automóvel, aos 21 anos, quando ia a caminho da base aérea de Monte Real, a 16 de Agosto de 1961: “Nunca mais haverá, para nós, alegria na terra. Foi feita a vontade do Senhor".

 

Artigo publicado in Revista Equitação n.º 134 , Novembro/Dezembro de 2018

Autor:

José Miguel Cabedo

equitacao@invesporte.pt

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