Veterinária. 06 NOV 2018

Fracturas dentárias

Com os avanços técnico profissionais e tecnológicos, relacionados com a odontologia de equinos no Brasil, tem-se diagnosticado, com maior frequência, a incidência de dentes fracturados em equinos.


Tempo de Leitura: 6 min

As fracturas dentárias são responsáveis por importantes prejuízos, tanto para o cavalo, quanto para o proprietário, uma vez que os recursos dispendidos para a resolução do problema são muito mais altos do que os investidos na prevenção.

A maior parte das fracturas dentárias pode ser prevenida com o devido acompanhamento odontológico, por um médico veterinário especializado em odontologia de equinos. Este acompanhamento permite identificar alterações, que podem resultar em fracturas, a tempo de corrigi-las.

Entre as alterações que causam fracturas as má-oclusões lideram a lista. São causadas por um conjunto de factores que incluem as próprias características anatómicas e fisiológicas dos equinos, maneio alimentar e estilo de vida.

Os dentes dos cavalos são classificados como hipsodonte, ou seja, são dentes de raízes curtas e coroa longa. A maior parte desta coroa fica alojada dentro do osso alveolar e ao longo da vida do cavalo, este dente erupciona à medida que é desgastado pela abrasão causada pelos alimentos durante a mastigação, principalmente das forragens. O cavalo selvagem pastava de 12 a 16 horas por dia promovendo, desta forma, um desgaste adequado dos dentes, mantendo a oclusão equilibrada, com a distribuição uniforme das forças da mastigação sobre os dentes. Com o advento da domesticação, os hábitos alimentares foram modificados, o tempo de pasto reduzido e até suspenso. A qualidade da erva fornecida foi modificada, ficando mais nutritiva, porém mais tenra. Devido à grande necessidade energética, fruto das exigências de trabalho impostas pelo homem, foram acrescentados à sua alimentação os grãos, que não faziam parte da dieta natural. Estas mudanças de hábitos e de dieta, passaram a promover um desgaste irregular dos dentes, resultando nas má-oclusões.

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As má-oclusões geram pontos de contacto prematuros entre os dentes, que ficam sobrecarregados pela má distribuição das forças da mastigação, que além de causarem desconforto ao cavalo, tornam estes pontos mais susceptíveis a fracturas. Estas alterações podem ser prevenidas e corrigidas, através do ajuste da oclusão, cujos intervalos entre tratamentos podem variar entre trimestral a anual, dependendo da gravidade do caso.

Outra causa relativamente comum de fracturas de dente é a incidência de cáries, principalmente as cáries infundibulares. Os dentes pré-molares e molares superiores, por serem mais amplos, possuem dois infundíbulos, que são câmaras cujas paredes são compostas de esmalte e preenchidas por cemento, que se estendem desde a superfície de oclusão dos dentes, até onde termina a coroa e começa a raiz. Durante o período de formação dos dentes, pode haver falhas neste preenchimento de cemento, formando pequenos espaços vazios entre trechos preenchidos por cemento. Quando este segmento do dente chega à superfície de oclusão pelo desgaste, este espaço é exposto ao ambiente oral e fica cheio de comida, que ali fermenta.

Outro factor importante predisponente à cárie é a alimentação rica em carboidratos simples (açúcar, melaço, etc). Estes açúcares favorecem a fermentação dos alimentos dentro dos infundíbulos, com a produção de ácidos, que desmineralizam as paredes do infundíbulo, permitindo a invasão por bactérias, que podem atingir a polpa do dente. Esta destruição dos tecidos mineralizados do dente, torna-o mais frágil e mais susceptível a fracturas causadas pelas forças da mastigação. As cáries infundibulares, quando diagnosticadas em uma fase inicial, podem ser tratadas, interrompendo o processo.

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Os traumatismos costumam ser a causa de grande parte das fracturas em dentes incisivos, devido a posição, no entanto, também podem acometer dentes posteriores, ainda que com menor frequência.

As fracturas dentárias, pela exposição da polpa do dente, resultam na formação de abcessos periapicais ( junto às raízes), que normalmente resultam em fístulas. Quando ocorrem em dentes pré-molares e molares superiores, podem causar sinusites purulentas em alguns casos de difícil resolução. Quando nos pré-molares e molares inferiores, inicialmente percebe-se o aumento de volume no osso mandibular, próximo ao dente fracturado. Quando ocorre a fístula, esta drena pela face ventral do osso mandibular.

O diagnóstico das fracturas muitas vezes é realizado durante o tratamento de rotina, quando o cavalo ainda não apresenta sintomas clínicos relativos às fracturas ou pelos sinais clínicos, quando já presentes. Estes sinais clínicos podem ser: aumento de volume na mandíbula ou na face, sinusite unilateral purulenta, halitose, dificuldades para comer, desconforto durante o trabalho e as fístulas mandibulares. Com o animal sedado e o espéculo oral (abridor de boca) instalado, o dentista veterinário, tem a oportunidade de fazer um exame detalhado dos dentes, e porventura identificar os fracturados. Quando identificado um dente fracturado é requisitado o exame radiográfico para avaliar a extensão e as condições da fractura e, assim, avaliar a necessidade da extracção do dente e o plano de extracção, caso seja necessário.

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O tratamento em grande parte dos casos é a extracção do dente fracturado, principalmente quando estes já estão a causar abcessos, fístulas, sinusites e os demais sinais clínicos. A extracção é realizada, de preferência, pela via intraoral com o cavalo em estação (de pé), sob efeito de sedação e bloqueio anestésico regional.

O custo da extracção é, aproximadamente, dez vezes mais caro do que um tratamento preventivo. Além do prejuízo financeiro, as perdas causadas na saúde do cavalo afectam directamente o bem-estar do animal, a performance nas competições e eficiência no trabalho.

 

Artigo publicado in Revista Equitação n.º 133 , Setembro/Outubro de 2018

Autor:

Mauricio Londres Mosse

equitacao@invesporte.pt

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