Raides. 11 ABR 2018

MANUEL ESPREGUEIRA MENDES VS MONGOL DERBY (05)

Nesta crónica, o cavaleiro relata o contacto com os Cavalos Árabes e a experiência de participação num Raide, quando faltam quatro meses para o Mongol Derby.


Tempo de Leitura: 11 min

Introdução aos raides


Tendo a minha principal disciplina sido os Saltos de Obstáculos, o contacto que tive com cavalos árabes tinha, até há pouco tempo, sido pontual, uma ou outra experiência, mas confesso que era uma raça e um estilo de cavalo que me passavam um pouco ao lado. Achava-os bonitos, sabia que eram resistentes, que têm menos uma vértebra no pescoço, mas muito honestamente pouco mais seria capaz de acrescentar.

Os últimos tempos vieram, no entanto, abrir-me os olhos para uma realidade bem diferente da que eu imaginava. A verdade é que o cavalo árabe vibra realmente numa frequência diferente. Que primeiro se estranha, mas depois se entranha e de que maneira.

Imaginem a transição, de cavalos mais pesados, cavalos que mesmo podendo ser quentes e difíceis, têm um certo peso debaixo do cavaleiro. E de repente montamos um árabe.

Parece um pássaro. Ágil, astuto, o cavalo que se quiser sai debaixo de nós sem sabermos como. O primeiro contacto é frio, de desconfiança. Vou alerta, sempre “a cavalo”, sem divagar muito. Qualquer ajuda é sentida muito ao de leve, vai-se experimentando. Um cão a ladrar pode resultar em qualquer reacção algures entre a rabada no ar num trote pelo ar com as narinas em richte, e um salto de quatro metros para o lado sem aviso prévio.

Mas à medida que a experiência evolui, que voltamos para montar o pássaro uma segunda e terceira vez (e voltamos mesmo), que vemos o potencial atlético, a finura, que percebemos aquela cabeça, a fasquia sobe, e realizamos que o que ao principio se estranhou, agora se entranhou a sério. Conseguir montar bem um cavalo destes é em si uma escola, que muito me tem dado.

Quando o objectivo é participar no maior raide do mundo, a importância de participar em raides é fácil de ser calculada. Por mais horas que se passe no ginásio, por mais tonificados que estejam os grandes grupos musculares, há pequenos músculos e movimentos que só treinamos a cavalo. Surgiram-me com esse objectivo duas oportunidades que fiz questão de agarrar.

A primeira foi uma égua que me foi emprestada, a cujo proprietário aproveito para voltar a agradecer. Chama-se Fiona. Começa por ser fisicamente perfeita para os meus treinos, já que é muito baixa. Uma árabezinha do tamanho de um garrano mongol. Esperta. Inquisitiva. Óptima cabeça. Tenho-a treinado por Monsanto no centro hípico Todos a Galope e, se tudo correr bem, farei com ela dois raides de 40km. É um prazer montá-la, já que é séria a trabalhar, nota-se evolução constante. Mas da Fiona a seu tempo mais novidades contarei.

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 Country girl arriving in town!

 

Chego à segunda oportunidade, que me foi dada pela Nogueira Endurance Team e pela Alfouvar Arabians, a quem aproveito também para deixar uma nota de agradecimento, e que culminou no meu primeiro raide, no mês de Março.

Contactaram-me pelo Facebook em Janeiro e propuseram-me participar num raide e passar um fim-de-semana de treino na sua casa, no Fundão.

Meti-me assim no comboio e lá fui. Sabia de antemão que os cavalos eram bonitos, porque já os tinha "cuscado" via redes sociais, quanto ao resto, sem grandes expectativas.

Fui logo surpreendido à chegada por uma paisagem inacreditável da Serra da Estrela cheia de neve. A Isabel foi-me buscar, fomos almoçar a sua casa e senti-me imediatamente bem-recebido. A conversa fluiu, falou-se de cavalos, de motas, disto e daquilo, comeu-se (e bebeu-se!) muito bem, e à tarde fomos, a Isabel, o Fernando (pai Nogueira) e eu, ao treino em mãos.

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Não só se trata de um lugar perfeito para a prática da modalidade, como a paisagem é ainda mais incrível do que a do comboio. E se os cavalos me tinham parecido bonitos nas fotografias, foi ao vivo que reconheci o potencial desportivo. Muito bem feitos, bem musculados, uns atletas dos pés à cabeça. Aí o assunto virou sério. A energia mudou, éramos três pessoas dos cavalos a fazer o que lhes compete, e gostei disso. Seriedade no trabalho. Apanhámos os cavalos, aparelhámos e seguimos num treino que foi de muito passo, com um pouco de trote e uma subida de uma montanha a galope pelo meio.

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Ao vivo é de queixo no chão!

Na semana seguinte, finalmente, o raide de Estremoz. Fomos com um dia de antecedência para preparar a logística, que é diferente de tudo o que eu já tinha experimentado nos cavalos. Por exemplo, a questão dos baldes. Cada equipa traz vários baldes e grades com garrafas vazias para arrefecer os cavalos antes do controle veterinário e nos pontos de apoio e assim reduzir a frequência cardíaca do cavalo. Há também que montar os paddocks onde relaxam entre as etapas da prova. Inúmeros detalhes logísticos que me eram desconhecidos.

O Fernando Nogueira e eu estávamos a participar no raide de qualificação de 40km. Cada cavalo e cavaleiro deve-se qualificar em dois raides de 40km antes de poder passar a mais dois de qualificação de 80km. Se este era o primeiro raide dos cavalos, era também o nosso.

A prova começou às 10h e o aquecimento foi feito a andar num passo activo. No dia anterior os cavalos tinham parecido dois barris de pólvora prestes a rebentar, no próprio dia, porém, o cavalo estava sério e a sensação que transmitia era a de estar perfeitamente preparado para o raide.

Lá partimos.

Saímos da quinta, entre vinhas e estradas de campo, passámos poças, contornámos buracos ou pedras. Fazer um raide é muito giro. É uma prova que dá para disfrutar realmente, pela distância e pela gestão que se vai fazendo do cavalo. Existindo nas provas de qualificação um tempo óptimo, o objectivo não é ser o primeiro a chegar, mas chegar o mais perto possível dos 16km/h. Trata-se de manter um ritmo, contando com momentos mais lentos, porque o piso é pior, outros mais rápidos para compensar e aproveitar um bom percurso, ir deixando o cavalo galopar para as duas mãos para que o desgaste seja proporcional.

O meu mérito nesta prova foi muito pouco, já que o trabalho por trás não é meu. Também a gestão do raide a nível de tempos foi feita pelo Fernando, pelo que eu limitei-me a ir lá em cima a certificar-me que o meu cavalo ia descontraído, sem pisar pedras ou buracos.

Tenho a esta família um grande agradecimento para fazer e dar os meus parabéns pelo bom trabalho que desenvolvem. Também ao proprietário dos cavalos, a Alfouvar Arabians, pela excelência na criação destes belíssimos cavalos, que certamente se vão revelar grandes atletas. Ficámos em 4.º e 5.º lugar na prova, à velocidade de 15.93kms/h e o Millenium Alfouvar ganhou o prémio de melhor cavalo árabe em prova.

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Enchouriçados no dorsal, a terminar a prova

Para culminar a boa experiência, foi também em Estremoz que se concretizou o meu mais recente patrocínio da loja Al Equine. Funciona em Évora, mas também disponível online, obrigado!

To Be Continued…

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Manuel Espregueira Mendes continua à procura de apoios que o ajudem a alcançar a meta do Mongol Derby, a maior e mais difícil corrida a cavalo do mundo. Poderá contactar o cavaleiro através do e-mail manelespregueira@hotmail.com

A coroar todo o trabalho que cada cavaleiro tem de fazer, entre treinos, angariação de patrocínios e a necessária exposição mediática, participar no Derby traz também consigo o dever de erguer fundos para duas instituições.

Cada cavaleiro tem de conseguir um mínimo de 500 libras para a Cool Earth, a instituição oficial da prova e outras 500 libras para uma instituição à sua escolha. A Cool Earth desenvolve um trabalho incrível na preservação de florestas que, sem intervenção de uma mão protetora, têm uma esperança de vida de menos de 18 meses.

Quanto à escolha do cavaleiro, decidiu apoiar as vítimas dos incêndios deste Verão em Portugal.

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Crónicas anteriores:

Novembro 2017: Descobertas, obsessões e loucuras ocasionais de uma tarde de Domingo

Dezembro 2017 : Da selecção à loucura em menos de 24h

Janeiro 2018: Treino parte I - O ginásio e o fim dos mitos

- Fevereiro 2018: Treino parte II - Cavalos, Suor e Sangue

Autor:

Manuel Espregueira Mendes

manelespregueira@hotmail.com

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