Crónica. 08 NOV 2017

Manuel Espregueira Mendes VS Mongol Derby (01)

Leia a primeira crónica de Manuel Espregueira Mendes, numa rubrica mensal que vai acompanhar, na primeira pessoa, a preparação do cavaleiro para o exigente Mongol Derby 2018.


Tempo de Leitura: 9 min

Descobertas, obsessões e loucuras ocasionais de uma tarde de Domingo

 

Qualquer estudante conhecerá bem a descoberta de necessidades urgentes e altamente prioritárias que surgem, quando tudo o que o dever nos manda é sentarmo-nos a estudar. A lista é infindável e ligada à criatividade do subconsciente de cada um. Naquele domingo, dia 25 de Junho, como alternativa a estudar para os meus exames finais, resolvi procrastinar no Instagram.

Entre as várias fotografias que vi, houve uma que me prendeu imediatamente a atenção: era uma fotografia de quatro cavaleiros ingleses na estepe da Mongólia, com o comentário “A meio do Mongol Derby, a melhor experiência da minha vida”. Claro está que, procrastinar é um caminho que tem de ser levado até ao fim e contra todas as consequências, pelo que, liguei o computador e fui pesquisar sobre esse tal de Mongol Derby.

A pesquisa demorou até à madrugada de segunda-feira, num rodopio de autêntica obsessão – quanto mais descobri, mais certeza tive de que se tratava de uma corrida e aventura que tinha tudo a ver comigo. Quando o autocontrole reinou e depois de algum estudo, decidi ir-me deitar.

MEM Cronica 01 - fig 01Imagem responsável por uma noite em branco

 

O resultado foi carregar no botão acima no dia seguinte e como um pequeno extra de precaução (expectativa algures entre o 0 e o 1.000.000 numa escala de 0-10), decidi inscrever-me no ginásio para começar a treinar, num espírito de aproveitar todo o tempo disponível, caso viesse a ser aceite. Esse treino consistiu numa mudança abrupta, presenciada pelo meu círculo de amigos e familiares, que rapidamente se puseram a perguntar, porque é que alguém, sem motivos competitivos, se dá ao trabalho de passar 3 horas por dia fechado num ginásio. “Hum, operação Verão!”, dizia eu, sabendo perfeitamente que o meu Verão iria ser passado em casa a estudar. “Que futilidade e perda de tempo” respondiam eles, sem se lembrarem desse facto e ignorando a pequena omissão e verdadeira razão por trás de tudo aquilo.

Agosto passou. Os exames finais também. A tal obsessão é que não.

Foi por esta altura que finalmente recebi um e-mail a pedir informações mais detalhadas sobre mim e sobre a minha experiência com cavalos, e depois desse, outro, a marcar uma primeira entrevista com um americano chamado Erik Cooper, que eu já sabia tratar-se de um aventureiro e ex-participante no Derby.

Achei então ser altura de começar a partilhar a informação com quem me rodeia, muito a conta-gotas.

“Hum… Inscrevi-me numa corrida a cavalo na Mongólia”. “Boa!” responderam uns, menos curiosos. Com meus pais, mais alerta e sensíveis à minha loucura, a história foi outra. Quiseram ver o site da tal corrida. Confesso que lhes mostrei a tentar por tudo manipular a informação, ocultando pequenos detalhes de menor importância, como os cavalos semi-selvagens ou imagens de quedas brutais, contornando a cada esquina do site os avisos quanto ao perigo envolvido na corrida. Mostraram-se entusiasmados. Acharam o projeto giro e uma experiência única. Até se depararem com o clássico aviso:

MEM Cronica 01 - fig 02

Um clássico do Derby, destinado a pais sensíveis e impressionáveis

 

É pertinente optar por saltar a descrição em maior detalhe das reações que se seguiram. De qualquer forma foi em Setembro, estamos em Novembro e continuo vivo. Posso só partilhar que a razão do meu coração continuar a bater se deve a um mero acaso, e denota desde já uma grande capacidade de resiliência e calma em situações de perigo elevado, escala Hiroshima e Nagazaki em Agosto de 1945.

À escalada do nível do embate para “perigo termonuclear eminente” seguiu-se, da minha mãe em particular, um tratamento de silêncio apenas cortado por monossílabos, expressões cerradas ou comentários secos que se prolongaram por bastante tempo.

Ah, a minha mãe...! Personalidade capaz da maior simpatia e amabilidade ou do maior antagonismo, frio, sem filtros, por vezes glaciar e cortante. Fui testando. “A mãe anda de uma riqueza no monossílabo invejável. Se por cada resposta sua com menos de três letras que recebo ganhasse dinheiro, não precisava de patrocínios para nada”. (A resposta segue na imagem em baixo)

MEM Cronica 01 - fig 03

 Olhar maternal e aconchegante

 

Tenho que admitir que, numa primeira análise, esta história de percorrer uma distância equivalente a Lisboa – Sul de França a montar cavalos ferozes numa semana, pode parecer uma péssima ideia. Entre a incontável panóplia de ossos e tendões partidos (da qual nem se safará o esternocleidomastóideo), passando pela desidratação, hipotermia ou insolação, pela solidão, pelos registos de perseguições por alcateias de lobos ou incidentes com grupos armados no meio da estepe, há razões de sobra para me chamarem de “louco”, “anormal” e todo um conjunto de adjectivos, uns mais respeitáveis que outros, alguns constantes no dicionário da língua portuguesa, outros não.

MEM Cronica 01 - fig 04 

O famoso esternocleidomastóideo. Experiência de facto enriquecedora, parte constituinte do Mongol Derby, são as necessárias pesquisas de anatomia, farmacologia e analgésicos, entre outras.

 

Mas a verdade é que, misturando todos estes ingredientes com a incrível paisagem da estepe; a insuperável hospitalidade inerente à cultura mongol, que mesmo sem falarem uma palavra de inglês nos recebem e alimentam nos seus “Gers” a leite de égua, ratos, cães e outras iguarias que tenham a desventura de cruzar o seu caminho; com o desafio e oportunidade única de autoconhecimento e superação que esta prova representa; com a paixão pelos cavalos e uma certa tendência masoquista, o resultado final torna-se num sonho, uma experiência inacreditável que certamente nunca irei esquecer.

MEM Cronica 01 - fig 05 

Inalteradas desde o princípio da cultura Mongol, assim são os "Gers", as casas dos habitantes da estepe, onde os concorrentes podem pernoitar como alternativa a dormir ao relento.

 

Entretanto, cerca de 10kg a menos e incontáveis repetições do “Despacito” depois (que parece tocar no ginásio em modo repeat), fui passando entrevistas por telefone, enviando vídeos meus a montar e respondendo a e-mails dos organizadores da prova, que culminaram na minha selecção a 4 de Outubro.

MEM Cronica 01 - fig 06

A refrescar a "Broa do Paço" após um treino de 4h. No Derby serão 14h por dia, durante uma semana. Novo mantra: "não há nada que não consiga fazer 14h por dia, durante 7 dias!"

 

Ainda que tenha um longo caminho a percorrer até chegar à meta do Mongol Derby, não só na obtenção de patrocínios como a nível de toda a preparação e logística, este projecto está já a ter um enorme impacto na minha vida. Não há agradecimentos que possam fazer jus ao apoio que tenho recebido desde então. Actos desprovidos de interesse de quem se apaixonou por este projecto e se dedicou a ajudar-me, mensagens e e-mails de incentivo, apoios monetários ou oferta de cavalos para treinar de pessoas que até agora não conhecia!

Os patrocínios que consegui já neste princípio do projecto, que mais do que uma quantia financeira pela contrapartida da exposição mediática, significam um acreditar nas minhas capacidades e um enorme voto de confiança. Obrigado!

To Be Continued…

MEM Cronica 01 - sponsors Novembro 2017 

Fique atento ao Portal da EQUITAÇÃO para mais uma crónica já no início do mês de Dezembro!

 

Autor:

Manuel Espregueira Mendes

manelespregueira@hotmail.com

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